abelha



o jardim lá fora é uma colmeia pulsante, um movimento coletivo que ignora a minha paralisia. do lado de cá, o drama é minúsculo e solitário. uma abelha bate contra o vidro, repetindo o erro com a insistência de quem não compreende a transparência. o vidro é a pior das mentiras, ele oferece a visão do mundo, mas nega o pouso.

é estranho pensar que a existência inteira descansa nos ombros de um ser tão frágil. dizem que, se elas sumirem, a vida se apaga em um efeito dominó. a abelha é a guardiã invisível da manutenção das coisas, a operária que costura o amanhã enquanto busca o néctar. sem ela, o planeta seria apenas um deserto de poeira e saudade.

mas a mesma criatura que sustenta a vida carrega o perigo na ponta do corpo. existe uma crueldade na sua ferroada. para alguns, um susto, para outros, o fim. para o alérgico, a abelha não é uma salvadora, mas um carrasco. um único toque e o ar falta, a garganta fecha, a vida interrompe o seu curso. há uma matemática perversa nessa criatura, o bicho que poliniza o mundo é o mesmo que pode enterrar um homem.

nossa vida é um pouco esse voo cego contra o vidro. voamos sozinhos, zumbindo nossos próprios anseios, tentando alcançar um horizonte que parece logo ali, mas que está bloqueado por camadas de transparências que não sabemos atravessar. somos essenciais para alguém, sustentamos pequenos universos particulares, mas também guardamos nossas defesas, nossas ferroadas, o nosso jeito de ferir para não morrer.

a abelha na minha janela não sabe que é o pilar da existência. ela só quer a flor. ela não sabe que, ao se defender, ela se mata, o ferrão que fica é o pedaço dela que se perde. a gente também é assim. às vezes, para manter o mundo de pé, a gente se debate contra o que não entende, gasta o próprio fôlego e, no fim, só quer uma brecha para voltar ao jardim e ser, enfim, parte de algo maior.

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