espectador

 


o silêncio aqui tem cor de asfalto molhado e cheiro de flor que ninguém regou. achei que, ao soltar o último suspiro, o cansaço finalmente ganharia uma cama. o inferno é o vidro.

sou o prisioneiro de uma redoma que soprei. vejo minha esposa sentada na ponta da cama. ela chora com os ombros. ela segura uma camisa minha e o cheiro a faz fechar os olhos. grito. grito até minha garganta inexistente arder, pedindo que ela me perdoe, dizendo que foi um erro, que a depressão era um monstro de mil braços e eu tinha apenas dois. mas o som morre no vidro. ela guarda a camisa no fundo da gaveta como se estivesse me enterrando pela segunda vez.

meus filhos passam pelo corredor. o mais velho carrega uma raiva nos olhos que queima mais que o fogo que eu temia. ele olha para o retrato na parede e desvia o rosto. a pequena ainda espera o carro na garagem. cada vez que o portão range, o coração dela dá um salto que sinto daqui, mas que não posso acalmar. queria ser o Deus que eles buscam nas orações, mas sou apenas o vazio que sobrou entre eles.

aqui, a eternidade é o vislumbre do que perdi. o inferno é a sede que não se apaga e a fome de um toque que nunca virá. sou um espectador faminto, condenado a assistir à vida se desdobrar sem mim, sentindo o peso de cada lágrima que ajudei a derramar sem poder secar nenhuma. é a contemplação eterna da minha própria ruína.

olho para cima e sinto o rastro do Espírito Santo, como um calor que já não me alcança. Jesus ofereceu o fardo leve, mas escolhi o peso morto. Deus é o autor da vida, e rasguei a página no meio da frase. agora, sou apenas um deserto que se lembra da existência da água e que  não tem mais permissão para beber.

o inferno é o relógio que parou para mim, mas continua correndo para todos eles. tive a chance de voltar apenas para observar quem amo sofrer, e descobri que essa é apenas a porta. ver o mundo seguir e as feridas fecharem é o primeiro degrau. atrás desse véu, existe um lugar feito sob medida para a minha escolha, me aguardando para o sofrimento que não termina.

é tarde demais. aqui, a dor e o desespero são absolutos, estou preso na antessala do abismo. a porta do julgamento já range nos trilhos, e não há volta.

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