abelha
o jardim lá fora é uma colmeia pulsante, um movimento coletivo que ignora a minha paralisia. do lado de cá, o drama é minúsculo e solitário. uma abelha bate contra o vidro, repetindo o erro com a insistência de quem não compreende a transparência. o vidro é a pior das mentiras, ele oferece a visão do mundo, mas nega o pouso. é estranho pensar que a existência inteira descansa nos ombros de um ser tão frágil. dizem que, se elas sumirem, a vida se apaga em um efeito dominó. a abelha é a guardiã invisível da manutenção das coisas, a operária que costura o amanhã enquanto busca o néctar. sem ela, o planeta seria apenas um deserto de poeira e saudade. mas a mesma criatura que sustenta a vida carrega o perigo na ponta do corpo. existe uma crueldade na sua ferroada. para alguns, um susto, para outros, o fim. para o alérgico, a abelha não é uma salvadora, mas um carrasco. um único toque e o ar falta, a garganta fecha, a vida interrompe o seu curso. há uma matemática perversa nessa criatura, o ...