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abelha

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o jardim lá fora é uma colmeia pulsante, um movimento coletivo que ignora a minha paralisia. do lado de cá, o drama é minúsculo e solitário. uma abelha bate contra o vidro, repetindo o erro com a insistência de quem não compreende a transparência. o vidro é a pior das mentiras, ele oferece a visão do mundo, mas nega o pouso. é estranho pensar que a existência inteira descansa nos ombros de um ser tão frágil. dizem que, se elas sumirem, a vida se apaga em um efeito dominó. a abelha é a guardiã invisível da manutenção das coisas, a operária que costura o amanhã enquanto busca o néctar. sem ela, o planeta seria apenas um deserto de poeira e saudade. mas a mesma criatura que sustenta a vida carrega o perigo na ponta do corpo. existe uma crueldade na sua ferroada. para alguns, um susto, para outros, o fim. para o alérgico, a abelha não é uma salvadora, mas um carrasco. um único toque e o ar falta, a garganta fecha, a vida interrompe o seu curso. há uma matemática perversa nessa criatura, o ...

espectador

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  o silêncio aqui tem cor de asfalto molhado e cheiro de flor que ninguém regou. achei que, ao soltar o último suspiro, o cansaço finalmente ganharia uma cama. o inferno é o vidro. sou o prisioneiro de uma redoma que soprei. vejo minha esposa sentada na ponta da cama. ela chora com os ombros. ela segura uma camisa minha e o cheiro a faz fechar os olhos. grito. grito até minha garganta inexistente arder, pedindo que ela me perdoe, dizendo que foi um erro, que a depressão era um monstro de mil braços e eu tinha apenas dois. mas o som morre no vidro. ela guarda a camisa no fundo da gaveta como se estivesse me enterrando pela segunda vez. meus filhos passam pelo corredor. o mais velho carrega uma raiva nos olhos que queima mais que o fogo que eu temia. ele olha para o retrato na parede e desvia o rosto. a pequena ainda espera o carro na garagem. cada vez que o portão range, o coração dela dá um salto que sinto daqui, mas que não posso acalmar. queria ser o Deus que eles buscam nas oraç...

900

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  deixei novecentas versões de mim pelo caminho. estavam guardadas em estrofes e métricas sem rimas que, com o tempo, deixaram de me servir. olhei para elas e não encontrei o meu reflexo, vi apenas um rastro, a cópia da cópia do cara que já fui um dia.. é necessário coragem para admitir que não nos reconhecemos mais nas próprias palavras. amadurecer, muitas vezes, é ter de abandonar o que já foi confortável para encarar o frio de um novo começo. as ideias que agora me visitam não cabem mais nos moldes antigos, elas exigem o silêncio, o espaço e a pureza de um papel que ainda não foi tocado. precisei desaprender o meu jeito de escrever para, enfim, aprender a dizer o que sinto hoje. as dores que me retalharam finalmente encontraram espaço para existir do lado de fora. minha bagagem agora é leve, carrego apenas o essencial. a vontade de observar o mundo com olhos novos me revelou a paciência de quem sabe que toda grande história começa, inevitavelmente, com uma folha em branco.

recomeço

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  mais uma vez, estou encarando as chamas da minha história pegando fogo. meus olhos estão iluminados, vidrados no passado. a fumaça nem incomoda tanto. estou começando do zero. mais uma vez, minha especialidade. essa é a número um desta nova fase. não sou mais aquilo que escrevia, outrora, a tinta da minha caneta seria a tristeza que vi escorrer em azul dos olhos do próprio Deus. a cidade sucumbiu e não dava para respirar, tudo isso observado pelo silêncio. daria um filme, mas a tristeza nunca segue roteiros.